Por Nicolas Nunes, participante da Oficina de Jornalismo realizada pelo WhitepaperDocs em parceira com o Sebrae-ES.
Em 1950, a Copa do Mundo era sediada no Brasil pela primeira vez e, junto dela, surgia o conceito de um álbum de figurinhas colecionáveis. Mas foi em 1970, durante a edição da Copa do Mundo realizada no México, que o álbum de figurinhas da Panini alcançou sucesso.
Desde aquela data, foram 13 álbuns da Copa lançados pela empresa italiana, e ao contrário do que poderia se imaginar, com o avanço da digitalização, um hábito do mundo “analógico” segue em alta, gerando inclusive uma crise por falta de álbuns e figurinhas da edição da Copa do Qatar 2022, especialmente na América Latina.
O Procon de São Paulo recebeu 432 reclamações de falta de álbuns e figurinhas, e solicitou à Panini informações a respeito da distribuição dos produtos. Na Argentina, a falta de “figus del Mundial”, forma como as figurinhas são chamadas por lá, motivou um protesto. No final de agosto deste ano, consumidores insatisfeitos dirigiram-se até os escritórios do distribuidor oficial da Panini no país, para manifestar indignação.
Escassez também no Espírito Santo
No Espírito Santo, o Procon Estadual ainda não registrou nenhuma reclamação formal de falta de figurinhas, mas o público sente no dia a dia a escassez na oferta. Na Banca do Japonês, tradicional ponto de encontro para compra e troca de figurinhas na Praia do Canto, em Vitória, as vendas começaram no dia 18 de agosto e são um sucesso. Gilmar Francisco, administrador do estabelecimento, disse que a demanda é tão grande que falta produto.
“Brasileiro, né, moço? É a terra do futebol, tem menina, menino e até senhores fazendo o álbum da Copa”.

“Tinha semana que os clientes chegavam procurando por figurinhas e eu respondia sempre a mesma coisa: ‘não tem figurinha e não sei quando vai chegar’. Se eu tivesse 200 álbuns hoje, já teria vendido. Uma senhora comprou centenas de pacotes de figurinhas para as netas, já outro menino comprou um valor que passa dos mil reais no cartão de crédito, e fez isso na companhia do pai. Brasileiro, né, moço? É a terra do futebol, do fanatismo. Tem menina, menino e até senhores de idade fazendo o álbum de figurinha da Copa”, disse Gilmar.
Contando com 50 especiais e 80 raras, o álbum da edição de 2022 tem 670 figurinhas, e o pacote com cinco unidades custa R$ 4,00.
Mas a escassez na distribuição da Panini não desanimou Eduardo Moreira, de 10 anos, que segue em busca das figurinhas na companhia do pai, José Antonio, de 40 anos.

“Eu gosto muito do álbum da Copa, faço coleção desde a edição na Rússia, em 2018. Gosto de futebol e quero achar figurinhas boas, que sirvam para trocar. Algum dia, vou vender as figurinhas raras que eu encontrar”, disse Eduardo, que segue a paixão do pai.
“Já colecionei álbuns na infância e na adolescência. Quando levo meu filho para comprar figurinhas, sinto como se estivesse deixando um legado de um costume que eu tinha”, comenta José Antonio.
Pensando nesse legado, shoppings montaram espaços específicos para reunir os colecionadores em pontos de encontro para troca de figurinhas. O Shopping Vitória reservou um espaço exclusivo no 1º piso, com acesso gratuito, no mesmo horário de funcionamento do centro de compras.
Boom de vendas das figurinhas da Copa reflete paixão no País do Futebol
O Brasil é o país número um quando o assunto é consumo de figurinhas da Copa do Mundo, como mostra uma pesquisa realizada pela Panini em 2018. De acordo com o estudo, o consumo brasileiro representou duas vezes o montante de compras da Alemanha, que foi a segunda colocada na pesquisa.
Um desses clientes fiéis é Renato Boninsenha, de 25 anos, que coleciona álbuns da Copa desde 2006 e afirma que completou todos que comprou. O rapaz se declara um grande entusiasta do futebol e que não conseguiu ignorar “aquele sentimento da busca pelo hexa crescendo no coração”.
“Decidi ignorar a razão, que me dizia que os preços estão elevados, e entrei de cabeça na brincadeira. Não existe evento no mundo mais mágico e grandioso que a Copa do Mundo, e como em toda festa, as pessoas trocam coisas, que nesse caso são as figurinhas”, disse.
“O grande barato de colecionar é ir na praça da cidade e trocar figurinhas com pessoas de todas as idades. O digital não permite essas interações”.
Questionado a respeito das mudanças da era digital, o apaixonado por futebol disse que ninguém dá muita bola para a versão digital do álbum.
“O grande barato de colecionar é ir na praça da cidade e conversar com desconhecidos, trocar figurinhas com pessoas de todas as idades. É ver a pracinha lotada e reclamar da pessoa que tem uma figurinha do Neymar repetida, mas que não quer trocar porque ‘só vende o Neymar por R$ 50,00’. O digital não permite essas interações, fora que colar as figurinhas é muito gostoso”, afirmou o vilavelhense.