Por Joanna Ferrari e Thiago Borges
O Plano de Descarbonização do Espírito Santo prevê a redução de 30% nas emissões de gases do efeito estufa até 2027 e o net zero, ou zero emissões líquidas de carbono, até 2050, meta alinhada ao Acordo de Paris. Diferente do que ocorre na maior parte do Brasil, onde a questão da descarbonização está relacionada a problemas florestais, no Estado o desafio está mais ligado aos setores industrial e de produção de energia.
Para entender qual o grau de maturidade e conhecimento das empresas capixabas sobre o tema e, a partir daí, permitir a elaboração de políticas públicas de financiamento visando a descarbonização, o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) e a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), por meio do Observatório Findes, desenvolveram a pesquisa inédita “Descarbonização e Eficiência Energética”, apresentada segunda-feira, dia 17 de março.
O compromisso ambiental foi citado como a principal motivação para 82% das empresas ouvidas, o que aponta uma iniciativa voluntária com foco na sustentabilidade ambiental – independente de exigências regulatórias ou de clientes, conformidades legais ou recomendações de consultorias. Em segundo lugar, com 66% de citações (era possível selecionar mais de uma resposta), aparece a iniciativa interna, ou seja, uma decisão estratégica da alta gestão para reduzir custos como motivação principal.
“A indústria, há muito tempo, vem se preocupando com esse tema. Mais de 70% das empresas têm conhecimento sobre descarbonização e sete em cada 10 empresas têm interesse em participar das mudanças conceituais dentro do setor. Essa consciência demonstra que as empresas enxergam a descarbonização como eficiência de produção, economia, produtividade e bem-estar dos colaboradores, trazendo uma série de benefícios para a sociedade. Afinal, as indústrias são feitas de pessoas e as pessoas são a sociedade”, afirmou o presidente da Findes, Paulo Baraona, na coletiva de imprensa que contou também com a participação do diretor-presidente do Bandes, Marcelo Saintive; da diretora operacional do Bandes, Gabriela Vichi; e da economista-chefe da Findes e gerente do Observatório Findes, Marília Silva.
A pesquisa é o primeiro passo para definir como serão investidos os R$ 500 milhões destinados pelo governo do Estado, com recursos do Fundo Soberano, para o financiamento de projetos de descarbonização nas empresas capixabas.
“O Espírito Santo se caracteriza por fazer boas políticas públicas, e elas começam sempre por entender aquela demanda. O governador Renato Casagrande é um líder nacional na temática das mudanças climáticas e determinou foco na descarbonização nos próximos dois anos. O Estado tem uma grande vantagem comparativa com outros estados do Brasil de poder investir R$ 500 milhões do Fundo Soberano no financiamento dessas iniciativas”, considera Saintive.
Os dados indicam que 56% das empresas planejam investir nos próximos 18 meses, enquanto 16% estão avaliando essa possibilidade. Além disso, o governador Renato Casagrande já havia sinalizado que o valor total da operação pode chegar a R$ 1 bilhão, e a distribuição dos recursos deve ser detalhada ao empresariado ainda em 2025.
A pesquisa
De acordo com os dados divulgados pelo Observatório da Federação das Indústrias, 18% dos respondentes declararam ter conhecimento avançado sobre descarbonização e eficiência energética. A economista-chefe da Findes e gerente do Observatório Findes, Marília Silva, explicou que o indicador significa que a empresa possui domínio do tema e acompanha tendências e inovações regularmente. Já 34% declararam ter conhecimento intermediário e 40% conhecimento básico da temática.
Quando perguntados sobre o interesse que possuem sobre o tema, 37% responderam ter interesse elevado, considerando a descarbonização um tema estratégico, com a empresa buscando ativamente implementar soluções nessa frente. Outros 40% têm interesse moderado, 22% pouco interesse e apenas 2% nenhum interesse.
“A pesquisa foi pensada como uma pré-etapa para o desenvolvimento do instrumento financeiro para essas empresas. Entre os resultados, nós reparamos que 56% delas destacaram que pretendem investir em projetos de descarbonização nos próximos 18 meses. Então, se somarmos isso aos 16% que estão avaliando as possibilidades de realizar investimentos, temos um percentual do empresariado com intenção e disposição real para esses projetos”, disse Marília.
Segundo a economista, a maior parte das empresas pontua que as principais barreiras enfrentadas pelas empresas para implementação ou expansão das medidas de descarbonização estão, justamente, no custo elevado e na necessidade de apoio com linhas de crédito acessíveis e assessoria técnica.
“E aí entra, de fato, a atuação do Bandes como formulador dessa política pública com o instrumento financeiro, e a Findes com assessoria e ferramentas, como o Senai, para auxílio das empresas” , complementou a gerente.

Descarboniza.i
As empresas que pretendem investir e as que estão avaliando a possibilidade foram questionadas sobre o tipo de apoio necessário para avançar nos investimentos. Linhas de crédito acessíveis foram apontadas por 72% das entrevistadas, tópico seguido por assessoria técnica (51%) e auxílio de terceiros para elaboração de projetos (40%).
Outro dado apontado na pesquisa é que, entre as empresas que já investiram em alguma medida de descarbonização, as mais adotadas estão relacionadas a eficiência energética (54%) e gestão de resíduos e economia circular (51%), muito à frente de outras iniciativas mais complexas, como descarbonização do transporte e logística (10%) e inovação/pesquisa e desenvolvimento em tecnologias verdes (7%).
Para acessar a linha de financiamento do Bandes, as empresas deverão ter projetos bem elaborados, inventário de carbono e indicadores mensuráveis para acompanhamento da redução das emissões de gases do efeito estufa. Para auxiliar nesse diagnóstico e elaboração de plano, identificando as medidas mais adequadas para cada empresa, o Senai lançará em breve o projeto Descarboniza.i, que está em fase piloto nas empresas Fibrasa e Imetame.
O programa faz uma radiografia da empresa e ajuda a avaliar inventário de carbono, mudanças de equipamentos, atualização tecnológica, capacidade de endividamento e dá suporte na preparação dessa busca pelo financiamento, capacitando a indústria para que ela navegue nesse novo ambiente de sustentabilidade.
Outros números da pesquisa
A pesquisa também avaliou a intenção das empresas em realizar investimentos em projetos que visem a adoção de medidas de descarbonização nos próximos 18 meses. Entre elas, 56% afirmaram que pretendem investir nos próximos 18 meses; 16% estão avaliando a possibilidade de realizar investimentos e 16% não têm a intenção de realizar investimento no período considerado.
“A transição para uma economia de baixo carbono já é uma realidade inadiável, e os resultados desta sondagem, conduzida em parceria com a Findes, oferecem um panorama importante sobre o posicionamento das empresas capixabas diante dessa urgência. No Bandes, temos o compromisso de fomentar iniciativas sustentáveis e estruturar soluções financeiras alinhadas às demandas do setor produtivo, garantindo que a descarbonização aconteça de forma competitiva e viável técnica e financeiramente”, destacou a diretora Operacional do Bandes, Gabriela Vichi.
Ainda de acordo com os dados da pesquisa, o financiamento completo seria o principal tipo de recurso financeiro que a empresa utilizaria (48%), seguido por capital próprio (32%). Além disso, 26% teriam até R$ 500 mil de valor disposto para investimento e 11% entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões
Já entre o grau de interesse em diferentes grupos de projetos de descarbonização, a eficiência energética lidera com 88% das empresas, seguida pelo uso de energias renováveis (86%) e gestão de resíduos/economia circular na sequência (78%).
O presidente da Findes, Paulo Baraona, explicou que a pesquisa vai ao encontro do que o setor produtivo vem buscando cada vez mais: procurar soluções que contribuam para um futuro de baixo carbono e que fortaleçam o movimento de transição energética no nosso Estado e País.
“A partir desse levantamento será possível, de forma conjunta entre a iniciativa privada e o poder público, identificar oportunidades comerciais e gerar potenciais parcerias que estejam alinhadas às estratégias de diversificação da matriz energética e descarbonização. A indústria tem cada vez mais liderado essa agenda e a Findes é uma grande entusiasta e estimuladora do desenvolvimento de tecnologias e inovações que contribuam para tornar os negócios mais eficientes, produtivos e sustentáveis”, afirmou Baraona.
Pesquisa Descarbonização e Eficiência Energética 2025
A coleta de dados ocorreu entre os dias 11 e 29 de novembro de 2024, com participação de 200 empresas, distribuídas em 33 municípios capixabas. O estudo teve como objetivo avaliar o nível de conhecimento e o interesse das empresas, em especial das indústrias, em realizar investimentos nas áreas de descarbonização e eficiência energética.
Das empresas que responderam, 59% são da indústria de transformação e 14% atuam no segmento de construção. Além disso, 49% das empresas declararam ser de médio porte e outros 34% de pequeno porte.
O foco do material era pontuar quais são as ferramentas do setor produtivo diante das mudanças climáticas, um dos maiores desafios globais da atualidade.
Fundamentada pelos planos de Adaptação às Mudanças Climáticas e de Descarbonização e
Neutralização dos Gases de Efeito Estufa — projetos apresentados pelo Estado em 2023 —, a pesquisa ouviu os empresários para formar uma aliança capaz de indicar o caminho da transição para uma economia de baixo carbono.
“Essa parceria que o governo estadual faz através do Bandes com a Federação das Indústrias visa a uma melhor formulação de políticas públicas. A pesquisa já mostra a conscientização do empresariado e demonstra que a diretriz do governo está certa ao pensar em um financiamento que torne as empresas mais preparadas para esse novo mundo de descarbonização”, disse Marcelo Saintive, diretor-presidente do Bandes.
Segundo o gestor, a pesquisa, que é inédita e pioneira sobre o tema no Brasil, é uma iniciativa para que a economia capixaba se torne ainda mais competitiva no futuro.