Por Luara Gagliardi, participante da cobertura jornalística do ESX 2025 realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com o Sebrae/ES
Uma cidade inteligente não é, necessariamente, a mais tecnológica, mas sim aquela que consegue usar dados e ferramentas digitais para garantir serviços públicos de qualidade, reduzir desigualdades e melhorar a vida da população. Essa foi a principal reflexão no painel “Cidades que Evoluem”, no Palco Conexão, no ESX 2025 – Innovation Experience Espírito Santo, que chega ao fim neste sábado, 12 de julho, na Praça do Papa, e debateu a nova era das cidades inteligentes e sustentáveis.
Participaram do debate o presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, o presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), Vinicius Marchese, e o coordenador do LabCidades da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Everlam Elias Montibeler, que reforçaram a necessidade de romper com a ideia de que tecnologia, sozinha, resolve os desafios urbanos.
Cidades digitais versus cidades inteligentes
Na abertura, o presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, Pablo Lira, lembrou que mais de 80% dos brasileiros já vivem em áreas urbanas — um cenário que exige soluções urgentes, especialmente diante das mudanças climáticas. Segundo Lira, a inovação é indispensável, mas precisa estar à disposição de serviços básicos mais eficientes.
Além disso, soluções urbanas que permitam menos impactos ambientais são cruciais para a continuação de nossa sociedade, conforme destacou Lira. Mas esse não é o ponto que define uma cidade inteligente e, sim, a qualidade dos serviços oferecidos à população daquela região.
Para compreender melhor esse conceito, Montibeler disse que é importante pensar na diferença entre cidade digital e cidade analógica. Nas analógicas, guardas de trânsito operam o trânsito; nas digitais, semáforos fazem esses trabalhos.
Isso se repete na figura do cobrador de ônibus, que já deixou de ser comum na Grande Vitória, e nas filas para pagar contas, fazer agendamento de consultas, entre outros serviços. Tudo isso faz parte de cidades digitais, mas não de cidades inteligentes. Se a cidade não consegue entregar qualidade de serviços, ela não é inteligente.
“A tecnologia é um meio, mas essas cidades [inteligentes] são muito mais sobre qualidade de serviços, sobre água potável em regiões menos favorecidas, e muito menos sobre um semáforo caro”
Vinicius Marchese, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).Sensoriamento de dados e gestão integrada
Montibeler destacou que, para evoluir nesse sentido, é essencial investir no sensoriamento e na integração de dados. Ele apontou que muitas prefeituras ainda não têm profissionais nem sistemas capazes de analisar grandes volumes de informações. “Duvido que você conheça um cientista de dados que trabalhe na prefeitura”, provocou, criticando a falta de capacidade de cruzar informações para planejar políticas públicas de forma inteligente.
A fragmentação de sistemas é outro gargalo. “Há municípios com dezenas de sistemas que não se conversam. Isso dificulta enxergar o todo”, comentou. Para enfrentar esse obstáculo, o LabCidades desenvolveu um sistema de gestão de obras que permite monitorar em tempo real o andamento de projetos públicos, ajudando na eficiência da administração.
Para ele, esse é um tipo de solução que usa as tecnologias a favor da sociedade e que permite ampliar a qualidade dos serviços, uma vez que oferece dados úteis para o acompanhamento de ações públicas, necessários para entender as demandas do município e operacionalizar ferramentas que melhorem a qualidade dos serviços acessados pela comunidade.
Casos práticos e impacto social
Para exemplificar, o presidente do Confea, Vinicius Marchese, citou o caso de São Paulo, onde a criação de uma faixa exclusiva para motos reduziu acidentes graves, economizando recursos que antes iam para o sistema de saúde. Ele também apresentou o Índice de Progresso Social (IPS), que mostra como as regiões com melhores serviços garantem mais qualidade de vida.
Ele usa como exemplo a região da Faria Lima, em São Paulo, a qual tem IDH alto, e apontou que “se você tem a sorte de nascer lá, sua expectativa de vida beira os 90 anos”. Enquanto isso, pessoas que nascem em cidades com índices baixos chegam a ter expectativas de vida dezenas de anos abaixo. Ele destacou que a melhoria do acesso a serviços é a melhor forma de proporcionar qualidade de vida para as pessoas.
Já o coordenador do LabCidades, Everlam Montibeler, lembrou que mesmo melhorias simples, como aplicativos que agilizam agendamentos na saúde, fazem diferença em cidades com infraestrutura limitada. Para ele, a participação do setor privado é fundamental para ajudar o poder público a entregar soluções práticas.
“Muitas vezes, uma cidade não tem um serviço de saúde tão bom, mas tem um aplicativo que te faz não precisar ir no posto para fazer agendamentos e te poupa tempo com isso. Mesmo que o serviço não seja excelente, essa é uma melhora possível, uma forma de começar a melhorar pelo que dá”
explicou Everlam.Realizadores
O ESX é uma realização do Sebrae/ES e da Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), com correalização do Governo do Estado do Espírito Santo por meio da Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti), e patrocínio da Vale.
(Foto: Felipe Amarelo/Divulgação)
SERVIÇO
ESX 2025 – Espírito Santo Innovation Experience
Local: Praça do Papa, Vitória, ES
Data: 10, 11 e 12 de julho, das 13h às 21h
Entrada gratuita
Programação completa e inscrições: esx.com.es/inscricao

