Por Kariana Ferreira, participante da cobertura jornalística do ESX 2025 realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com o Sebrae/ES.
Trazendo a inovação como um de seus principais pilares, o ESX 2025 – Innovation Experience Espírito Santo, que está sendo realizado até o dia 12 de julho, na Praça do Papa, não poderia deixar de lado a diversidade. Em um ecossistema que busca soluções disruptivas, o evento propôs uma reflexão importante: qual o papel da inclusão no empreendedorismo? A resposta veio por meio das palestras realizadas no Palco Plural, sendo uma delas “Conexões atípicas: Inclusão, empreendedorismo e neurodivergências”, e do espaço sensorial dedicado ao acolhimento de pessoas neurodivergentes.
Mediada por Adriana Notaroberto, administradora e mãe de uma criança neurodivergente, a palestra reuniu João Otávio Carvalho, criador do jornal online JOTA TV e autista nível 1; Daniel Freire, fundador do Ryoku Center, espaço multidisciplinar voltado à prática inclusiva de artes marciais; e Ronaldo Cohin, CEO da Jade Autism, startup voltada ao desenvolvimento de tecnologias para autistas. Juntos, eles compartilharam experiências e trajetórias que ampliam o debate sobre como a neurodiversidade está transformando o ecossistema de negócios e inovação.
Logo no início da conversa, Adriana trouxe um questionamento essencial: “O que significa conexões atípicas dentro desse contexto de empreendedorismo e inclusão?”. Segundo dados publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2024, até julho de 2023 a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) estimava que havia 18,9 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no Brasil. A pesquisa revelou ainda que apenas 29,2% desse grupo estão inseridos no mercado de trabalho, o que torna urgente discutir a inclusão de forma mais estruturada e efetiva.
O CEO da Jade Autism, Ronaldo Cohin, pontuou que no campo da tecnologia o debate está um pouco mais avançado. Mas os palestrantes deixaram claro que, em muitas outras áreas, a discussão ainda é praticamente inexistente. Um exemplo positivo citado pelo CEO foi o de um profissional da Microsoft que, ao agendar uma reunião, se identificou como neurodivergente e informou previamente possíveis dificuldades de comunicação. “Isso permite preparar um encontro mais acessível para os dois lados”, destacou.
Para ele, esse tipo de atitude deveria ser natural nas empresas, como parte de uma cultura mais empática. Nesse contexto, reforça-se a importância de que o empreendedor esteja preparado não apenas para lidar com a diversidade, mas também para formar equipes conscientes, abertas e acolhedoras.
João Otávio Carvalho, mais conhecido como Jota, é um exemplo dessa transformação em curso. Ele criou a JotaTV, um canal de comunicação que tem como foco principal a divulgação de temas ligados à neurodivergência, como o autismo, o TDAH e as altas habilidades. Para ele, ainda é preciso desconstruir estereótipos.
“As pessoas precisam entender que não existe um único tipo de autismo. Somos diversos, com características diferentes, e temos capacidade de fazer o que gostamos, de desenvolver nossos talentos e hiperfocos.”
João Otávio Carvalho, idealizador da JotaTVProfessor de Educação Física, especialista em judô inclusivo e fundador da Ryoku Center, espaço multidisciplinar voltado à prática esportiva com foco em crianças típicas e atípicas, Daniel Freire explica que o caminho do empreendedorismo com foco na diversidade ainda é cercado de barreiras, inclusive de reconhecimento. “No início, diziam que o que eu fazia não era judô de verdade. Mas é isso. A gente enfrenta, luta e mostra resultado”, constatou.
Daniel atua com o judô de maneira terapêutica. Ele busca não apenas o desenvolvimento técnico dos alunos, mas também aspectos emocionais e sociais, como lidar com frustrações e formar cidadãos. “Quando a gente divide o conhecimento, mais pessoas podem acessá-lo e adaptá-lo à sua vivência”, afirmou.
No fim das contas, conexões atípicas significam reconhecer que a inovação só é plena quando acolhe diferentes formas de pensar, sentir e se expressar. É ir além da adaptação, trata-se de criar ambientes onde todas as pessoas, com suas particularidades, possam contribuir, empreender e pertencer de verdade. Como reforçou Ronaldo Cohin, CEO da Jade Autism: “Se você precisa excluir alguém para incluir alguém, isso não é inclusão.”
Espaço Multissensorial
Pelo segundo ano consecutivo, o Sebrae/ES apresentou o Espaço Multissensorial, desenvolvido cuidadosamente para atender às necessidades de pessoas com neurodivergências, como Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA), dislexia, entre outros.
Malu Moreira, trainee do Sebrae/ES e uma das curadoras do Espaço Multissensorial, destacou que a ideia é oferecer um local onde essas pessoas possam se reorganizar emocionalmente e sensorialmente. Em situações de desconforto ou crise, elas podem se acalmar no espaço e depois retornar para as atividades, não havendo necessidade de a pessoa ir embora. “Às vezes a gente imagina que não vai ter muita procura, mas tem sim. Recebemos jovens, adultos, crianças… e uma coisa muito legal é que muitas pessoas vêm até aqui para conhecer, porque ainda não sabem exatamente o que é um espaço sensorial”, explicou Malu.

Espaço Multissensorial é um local de calma para pessoas neurodivergentes
Realizadores
O ESX é uma realização do Sebrae/ES e da Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), com correalização do Governo do Estado do Espírito Santo por meio da Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti), e patrocínio da Vale.
SERVIÇO
ESX 2025 – Espírito Santo Innovation Experience
Local: Praça do Papa, Vitória, ES
Data: 10, 11 e 12 de julho, das 13h às 21h
Entrada gratuita
Programação completa e inscrições: esx.com.es/inscricao

