A inteligência artificial avança de modo consistente na administração pública brasileira. Hoje, uma em cada 10 prefeituras e um em cada quatro órgãos federais já utilizam ferramentas de IA, segundo dados apresentados em audiência pública da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados. O movimento vem transformando rotinas de trabalho, otimizando processos e criando possibilidades de interação entre Estado e sociedade.
Ainda de acordo com os dados apresentados no último mês, a capital capixaba, ao lado das cidades de São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Brasília e São Caetano do Sul, têm se destacado, desde a pandemia da Covid-19, ao explorar soluções inteligentes em áreas como saúde, educação e segurança pública.
Além disso, a coordenadora-geral do Laboratório de Inovação em Inteligência Artificial da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), Patrícia Baldez, apontou que os ganhos da implementação de IA nos setores públicos já são expressivos: as novas ferramentas podem gerar uma redução de até 30% nos custos de operação e um aumento de 40% na produtividade, além de permitir ações proativas do poder público a partir da leitura de dados complexos.
IA aplicada ao MPES
Nesse contexto, o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) inovou com o Programa AMPL.IA – Aprimoramento de Métodos e Processos com Linguagens de Inteligência Artificial. O WhitepaperDocs conversou com exclusividade com o procurador-geral de Justiça, Francisco Martinez Berdeal, para conhecer a nova Inteligência Artificial do órgão, desenvolvida internamente para apoiar a atuação de promotores, procuradores e servidores.
O objetivo do Amplia, de acordo com o procurador-geral, é liberar tempo das atividades repetitivas e operacionais para que a instituição concentre esforços no que realmente importa: a defesa dos direitos da população, a promoção da Justiça e a fiscalização do poder público.
Confira a entrevista na íntegra com Francisco Martinez Berdeal, procurador-geral de Justiça:
Whitepaperdocs — O que motivou o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) a criar o Programa AMPL.IA e qual é o principal objetivo dessa iniciativa?
Francisco Martinez Berdeal, Procurador-Geral de Justiça — O AMPL.IA é um programa institucional do MPES que articula diferentes ferramentas tecnológicas para qualificar a gestão, aprimorar fluxos internos e ampliar a efetividade da atuação ministerial. Mais do que um conjunto de soluções digitais, o programa representa uma nova lógica de desenvolvimento: colaborativa, sustentável e alinhada às necessidades da instituição.
O AMPL.IA nasce como parte de uma transformação contínua, que une inovação, tecnologia, estratégia institucional e gestão pública qualificada. Uma iniciativa feita por membros e servidores da casa, para potencializar a atuação do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) com inteligência e responsabilidade.
Como descreveria, de forma simples, o funcionamento das primeiras ferramentas de inteligência artificial lançadas pelo MPES?
O AMPL.IA tem um compromisso claro: apoiar o trabalho realizado pelos integrantes do MPES, e não substituir.
As ferramentas desenvolvidas se integram ao nosso sistema de gestão de autos, o Gampes, e foram projetadas para agilizar atividades repetitivas, operacionais e de menor complexidade. Com as novas ferramentas, agilizamos o processo de geração de resumo dos autos, de transcrição de depoimentos, possibilitando maior celeridade na análise.
Também temos um assistente virtual e um gerador de minuta de denúncias criminais, que fazem a atuação do Promotor de Justiça ser mais ágil.
O programa foi apresentado durante o 2º Encontro Nacional de Gestão Estratégica para Líderes dos Ministérios Públicos. Qual a importância de lançar essa iniciativa em um evento nacional e diante de outras instituições?
O programa AMPL.IA foi lançado durante 2º Encontro Nacional de Gestão Estratégica para Líderes dos Ministérios Públicos, realizado na sede do MPES. O evento teve como tema central o uso de indicadores com foco em resultados. Foi um momento muito propício para apresentar essa iniciativa que busca ampliar cada vez mais os resultados da instituição para a sociedade.
Quais setores ou atividades dentro do MPES serão diretamente beneficiados pelo uso dessas ferramentas de IA neste primeiro momento?
As ferramentas desenvolvidas ampliam a capacidade da nossa área finalística, principalmente nas Promotorias de Justiça, que são nosso maior ponto de contato com a população, de produzir resultados mais qualificados, ágeis e eficientes para a sociedade capixaba. Também servirão muito aos Procuradores de Justiça na sua atuação nos recursos junto aos Tribunais.
A proposta é fortalecer a capacidade de análise de grandes volumes de dados e informações, sem acelerar processos de forma artificial, mas garantindo que o tempo seja investido onde realmente importa: na entrega de uma atuação mais qualificada, humana e comprometida com o interesse público.
O desenvolvimento do AMPL.IA envolveu várias áreas internas e parceiros estratégicos. Como foi esse processo de criação?
Nosso sistema de gestão dos autos, o Gampes, passou por um extenso processo de preparação para ser capaz de receber essas novas ferramentas. Foram meses de trabalho das nossas equipes de inovação e tecnologia para tornar possível o uso da inteligência artificial integrada aos nossos sistemas e processos.
O programa resulta de parceria entre a Subprocuradoria-Geral de Justiça Institucional, com a Unidade de Inovação e Sustentabilidade (UIS) e da Unidade de Qualidade e Processo (UQP) da Assessoria de Gestão Estratégica (AGE), a Coordenação de Informática (CINF) e a Assessoria de Integração Tecnológica e Sistemas (ATEC).
Durante o lançamento, o senhor mencionou que o programa segue uma lógica colaborativa e sustentável. De que forma esses princípios são aplicados no dia a dia da inovação no MPES?
Todo o processo foi conduzido internamente, com equipes técnicas e de gestão do próprio MPES, o que permitiu reduzir custos, garantir autonomia e adaptar as soluções à realidade da instituição. Soluções que entregam resultados similares poderiam custar milhões de reais para a administração pública, mas conseguimos produzir internamente.
A escolha pelo desenvolvimento interno também fortaleceu o protagonismo institucional na construção de soluções tecnológicas que sejam relevantes para a nossa realidade. Ao longo de sua implementação, foram criados caminhos para que os usuários possam sugerir mudanças e até mesmo a criação de novas ferramentas.
Quando falamos de inteligência artificial no setor público, surgem dúvidas sobre riscos, como segurança de dados, privacidade e possível substituição de postos de trabalho. Como o MPES está lidando com essas questões?
Reforçamos que o AMPL.IA tem um compromisso de apoiar o trabalho realizado pelos integrantes do MPES, e não substituir.
Além disso, toda sua estrutura de funcionamento foi pensada para garantir efetividade, mas também grande segurança das informações e privacidade, tendo em vista a vasta gama de dados sensíveis que o MPES opera.
O uso da IA promete dar mais agilidade às tarefas repetitivas, liberando tempo para análises mais complexas. Como o senhor acredita que isso pode impactar, na prática, a atuação dos promotores e procuradores?
Ao absorver tarefas operacionais, o AMPL.IA abre espaço para que membros e servidores possam se dedicar com mais profundidade às demandas que exigem análise criteriosa, responsabilidade institucional e sensibilidade humana diante das complexidades sociais.
E qual vai ser o impacto para a população?
Um atendimento mais ágil e qualificado das demandas. Com o AMPL.IA, geramos novas oportunidades para que Promotores e Procuradores de Justiça estejam próximos da população, construindo um MP cada vez mais perto e mais público.
O AMPL.IA é apenas o começo? Já existem outras ferramentas, projetos ou ideias que possam ser divulgados?
O AMPL.IA é um programa em plena expansão. Novas ferramentas estão sendo desenvolvidas e muitas outras serão ao longo dos anos. Com esse programa, fincamos nossa bandeira em um novo território: Inteligência Artificial no MPES. E esse é um movimento que não vai parar!
Por fim, qual é a sua visão para o futuro do Ministério Público do Espírito Santo na integração de inteligência artificial e outras tecnologias à sua atuação institucional?
Vejo o futuro do Ministério Público como uma instituição que utiliza a inteligência artificial para ganhar agilidade e eficiência, mas sem renunciar à responsabilidade e à sensibilidade humana. A tecnologia vai apoiar o trabalho, nunca substituir. O AMPL.IA marca o início dessa trajetória: usar inovação para fortalecer a atuação em defesa da sociedade.

