O futuro das redes sociais pode estar diante de uma transformação profunda. Depois de mais de uma década de expansão contínua, o tempo gasto nessas plataformas começou a cair de forma consistente. Segundo análise publicada no Financial Times, conduzida pelo jornalista John Burn-Murdoch com base em dados da empresa GWI, o uso global de redes sociais atingiu seu pico em 2022 e recuou cerca de 10% desde então — movimento que se mostra mais acentuado entre adolescentes e jovens adultos na faixa dos 20 anos, que antes eram os usuários mais assíduos.
De acordo com o estudo, que analisou os hábitos online de 250 mil adultos em mais de 50 países, a curva de ascensão e declínio não se explica apenas pelo fim do isolamento social provocado pela pandemia, mas reflete uma mudança mais ampla de comportamento digital.
“O uso seguiu uma curva suave de crescimento e queda ao longo da última década”, afirmou Burn-Murdoch. A exceção é os Estados Unidos, onde o consumo digital segue em alta.
Mais do que uma redução quantitativa, o que se observa é uma transformação qualitativa na forma como as pessoas utilizam as redes. Conectar-se com amigos, compartilhar opiniões e participar de conversas deixou de ser prioridade para muitos usuários. Hoje, grande parte do tempo nas plataformas é dedicada a acompanhar celebridades, criadores de conteúdo e influenciadores — ou simplesmente a preencher o tempo livre.
Esse deslocamento de propósito revela uma divisão cada vez mais clara entre dois tipos de plataformas. De um lado, estão as voltadas à comunicação interpessoal, como o WhatsApp, que preservam um caráter relacional e privado. De outro, as plataformas centradas no consumo de conteúdo, como TikTok, Instagram e Facebook, movidas por algoritmos que maximizam o tempo de permanência e moldam a experiência do usuário em torno de vídeos curtos e recomendações automáticas.
A chegada de novas tecnologias de inteligência artificial tende a intensificar essa transformação. O lançamento do Sora 2, da OpenAI, é um exemplo. O aplicativo, descrito pelo site 404 Media como uma “máquina de violação de direitos autorais”, facilita a criação de vídeos por IA, o que pode gerar uma avalanche de conteúdos automatizados e genéricos.
Esse cenário desafia não apenas o público, que precisará de capacitação para distinguir o autêntico do sintético, mas também os profissionais de marketing e comunicação, que terão de repensar suas estratégias em um ambiente saturado de produções artificiais.
Para Burn-Murdoch, esse momento pode representar um divisor de águas. “Talvez, daqui a alguns anos, olhemos para setembro de 2025 como o ponto em que as redes sociais passaram do auge e começaram sua transição acelerada — de um espaço para ser visto, com filtros bonitos do Instagram, para um canto barulhento da internet ocupado por quem não tem nada melhor a fazer”, escreveu.
Se a previsão se confirmar, o termo social media pode, em breve, tornar-se obsoleto. O que virá a seguir pode não ser o fim das redes, mas o início de um novo ciclo — menos “social”, mais automatizado e profundamente transformado pela lógica algorítmica e pela inteligência artificial.

