Por Isadora Eleutério, participante da cobertura jornalística do ESX 2025 realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com o Sebrae/ES
A palestra “Empreendedorismo e povos originários: Saberes ancestrais, negócios do futuro”, no Palco Plural do ESX 2025 – Innovation Experience Espírito Santo, inaugura uma nova temática no evento: o empreendedorismo dentro das comunidades tradicionais e as inovações promovidas pelos povos originários como forma de unir tradição e empreendedorismo para o sustento de comunidades indígenas.
O palco foi conduzido pela cacique Marcela Tupinikin, segunda mulher a ocupar o cargo de cacique na comunidade Irajá de Aracruz, e por Ará Martins, da etnia Guarani, também de Aracruz. O evento realizado pelo Sebrae/ES chega ao fim neste sábado, 12 de julho, na Praça do Papa, em Vitória.
Inovação como resistência
A jovem líder indígena Guarani Ará Martins, coordenadora do projeto “Nhãdeva Ekuery (Quem Somos Nós) – Celebrando a Cultura Guarani nas Escolas”, pontuou que a ideia nasceu do preconceito sofrido quando ainda era adolescente.
Ela contou que, quando jovem, sofreu discriminação devido sua etinia e, por isso, teve que sair da escola. Com a necessidade de levar renda para sua comunidade e usando a força adquirida por meio das dificuldades vividas, Ará, aos 15 anos, iniciou o projeto.
A iniciativa leva a cultura indígena para dentro das escolas, apresentando a tradição dos povos e mostrando o trabalho produzido dentro das comunidades. Além de palestras e rodas de conversa, os participantes têm a oportunidade de conhecer os produtos fabricados pelos povos. Martins apontou que vender objetos frutos da tradição, como o pau de chuva, além de levar renda para que as comunidades indígenas consigam se sustentar, preserva a cultura e a memória ancestral.
“Quando eu vendo um artesanato eu falo como as pessoas devem respeitar e ter aquilo dentro de suas casas. Assim, elas entendem que não é só pra vender, mas sim uma forma de entenderem a nossa cultura, A partir do momento que as pessoas conhecem isso, elas passam a respeitar”
Ará Martins, líder indígena Guarani e idealizadora do projeto “Nhãdeva Ekuery (Quem Somos Nós) – Celebrando a Cultura Guarani nas Escolas”
A palestra também contou com a cacique Marcela Tupinikin, segunda líder mulher de uma comunidade Tupiniquim. Sendo a única líder entre 11 representantes homens, a representante da comunidade Irajá, de Aracruz, contou sobre o empreendedorismo feminino dentro de sua comunidade.
“Hoje, as mulheres estão atuando para se auto sustentabilizar, para ter seu próprio recurso sem depender do dinheiro do esposo. Hoje, elas têm fazendas de onde elas vão tirar seu sustento”, explicou a cacique.
A principal atividade das mulheres do projeto Mulheres Guerreiras, da comunidade Irajá, é a venda de artesanato. Entre os produtos, estão pinturas artesanais, bolsas, jóias feitas com sementes e peças decorativas de bambu, vidro e sisal.
A agricultura familiar também tem crescido como iniciativa de empreendedorismo. Todas as sextas-feiras, as mulheres de Irajá produzem uma tapioca artesanal para venda e abrem o espaço da comunidade para que as pessoas conheçam e comprem os produtos. Para a cacique, essas atividades são essenciais para que as comunidades consigam se sustentar e permite que elas preservem sua cultura a partir da tradição.
Desafios e apoio aos projetos
As palestrantes apontam que as comunidades ainda têm muita dificuldade de vender seus produtos e se sustentar. Seja pela falta de apoio, seja pela discriminação, os projetos de empreendedorismo se sustentam com esforço e cobrança por incentivo externo.
A coordenadora do projeto Mulheres Guerreiras, Luciana Anjos, apontou duas dificuldades principais: a escassez de matéria prima para produzir os artesanatos e a falta de apoio financeiro para a continuidade dos projetos.
“A nossa maior dificuldade hoje é ter o apoio financeiro a longo prazo, para que a gente consiga atender todas as mulheres da comunidade e para que elas consigam ter sua profissão, sua fonte de renda a partir do que elas aprenderam conosco”
Luciana Anjos, coordenadora do projeto Mulheres Guerreiras.
Além disso, Luciana destacou que devido ao desmatamento e mudanças climáticas, tem sido cada vez mais difícil encontrar a matéria prima para fazer os artesanatos e que, muitas vezes, o projeto tem que comprar sementes e materiais de outros lugares para produzir as peças e manter viva a tradição.

Realizadores
O ESX é uma realização do Sebrae/ES e da Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), com correalização do Governo do Estado do Espírito Santo por meio da Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti), e patrocínio da Vale.
(Foto de capa: Felipe Amarelo/Divulgação)

