Por Luara Gagliardi, participante da cobertura jornalística do ESX 2025 realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com o Sebrae/ES.
“Quais heranças a sociedade vai priorizar para o futuro e quais serão erradicadas no presente?”. O questionamento da educadora, crítica cultural e influenciadora Rita Von Hunty enfatizou a urgência de uma década que considera ser decisiva para a humanidade, provocando reflexões sobre a continuidade da existência humana. A palestra da drag queen, conhecida por suas aulas de sociologia gratuitas no YouTube, encerrou o segundo dia do ESX 2025 – Innovation Experience Espírito Santo, e lotou a Arena do Conhecimento, retribuindo com quase duas horas de conteúdo o público que estava na expectativa de vê-la ao vivo.
Rita Von Hunty desmistificou a categorização geracional (X, Y, Z), defendendo que a ideia de geração vai além de rótulos e se entrelaça com contextos sociopolíticos e econômicos. Para ela, as diferenças geracionais e de valores são intrinsecamente ligadas à transmissão cultural, considerando que a cultura é tudo que é cultivado pela humanidade. E ela não é inerentemente boa, pois seu valor depende do “bom para quê?” e “bom para quem?”.
A educadora exemplificou com o racismo, questionando como seria se a sociedade tivesse que “inventá-lo a cada geração” para ilustrar a perpetuação de valores problemáticos. O processo de herança cultural, contudo, não é definitivo. Rita provocou a audiência a refletir sobre o momento de recusar algumas heranças.
“Todos nós recebemos heranças racistas, lgbtfóbicas, machistas. E quando vamos recusá-las? Que horas você vai negá-las? Que horas você vai matar o ditador que há em você?”, provocou.
Para a palestrante, a transmissão cultural é inevitável, mas a aceitação e perpetuação de todas as culturas não. A reflexão central é: quais heranças a sociedade priorizará para o futuro e quais serão erradicadas no presente?
Crise climática e precarização do trabalho
A crise climática foi outro ponto crucial da palestra, com Rita Von Hunty alertando para dados alarmantes. O Acordo de Paris, que visava conter o aumento da temperatura global em 1,5°C, já estaria defasado, e agora a meta se eleva para 2°C ou 3°C, enquanto leilões para exploração de petróleo na Foz do Amazonas continuam. A educadora questiona o papel da geração atual como um elo na produção de petróleo para os próximos 70 anos.
A ecoansiedade é um fardo para a nova geração, somando-se a outros desafios como altos índices de homicídios na juventude brasileira e a crescente precarização do trabalho. Rita comparou a situação atual com o século XIX, no início do capitalismo, onde as condições de trabalho eram abusivas e os trabalhadores desprotegidos, similar ao cenário dos trabalhadores de plataformas/aplicativos hoje.
Para Rita, a percepção de que “os jovens não querem trabalhar” é, na verdade, um reflexo da falta de perspectivas de melhora de vida, com a concentração de capital minando a vontade de viver e a capacidade de sonhar.

Rita Von Hunty: “Se queremos um novo mundo, temos que criar um novo mundo” (Foto: Felipe Amarelo/Divulgação)
Tecnologia e o futuro do trabalho
Rita defendeu ainda que a tecnologia deveria servir para proporcionar mais tempo de vida e menos tempo de trabalho. Um bom uso da tecnologia, segundo ela, implica na “consciência de que o nosso trabalho humano tem que ser o de ter a capacidade de verificar, e não aceitar”. O capitalismo de plataforma, embora mascarado pela ideia de autonomia e dinamismo, remonta às formas proto-capitalistas dos séculos XVIII e XIX, onde trabalhadores corriam riscos sem responsabilização das empresas.
A educadora criticou a lógica de que “não há pobreza que resista a 14 horas de trabalho” ou discursos de coach que ignoram a realidade dos trabalhadores. Segundo ela, o fenômeno do quiet quitting reflete a exaustão da classe trabalhadora frente a condições insustentáveis. Rita enfatizou a necessidade de um Estado que invista em bem-estar social, questionando para onde vai o dinheiro sem o fim do teto de gastos.
A urgência da utopia e novas perspectivas
A palestra abordou a cristalização da precarização na cultura, exemplificada por filmes que normalizam essa lógica. Medos sociais, como o imaginário dos zumbis surgido após a colonização africana, refletem o temor de corpos que nunca descansam, uma metáfora para a exaustão no capitalismo. O burnout, diagnóstico predominante hoje, indica que o corpo humano tem um limite para a extração de valor, ao contrário das empresas. Rita ressaltou o aumento histórico das taxas de suicídio entre jovens, que antes era um “privilégio de classe” e agora se expande devido à falta de perspectivas.
A educadora concluiu que a capacidade de sonhar é vital, e a utopia é necessária para avançar. Ela sugeriu a leitura de Ailton Krenak, Nego Rispo e Beatriz Nascimento como inspirações para novas formas de viver, sonhar e se envolver com a Terra e os outros, além de refletir sobre a exploração do corpo humano.
“Novas gerações e valores não existem. Eles vão sendo criados através da ação. Se queremos um novo mundo, temos que criar um novo mundo”, finalizou Rita, instigando à ação imediata para transformar as forças opressoras dentro de cada um.

