Por Joanna Ferrari, editora da WhitepaperDocs, e Júlia Firme, participante da cobertura jornalística do ESX 2025 realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com o Sebrae/ES.
O maior desafio para as micro e pequenas empresas na área da inovação é a mudança de mindset. De acordo com o diretor Técnico do Sebrae/ES, Eurípedes Pedrinha, a micro e pequena empresa nem sempre percebe o quanto a inovação está próxima, é necessária, possível e viável para o negócio dela. Ele falou ao WhitepaperDocs durante o ESX 2025 – Innovation Experience Espírito Santo, realizado de 10 a 12 de julho, na Praça do Papa.
Em relação aos desafios do ecossistema de inovação capixaba, na visão de Pedrinha ele precisa ser ampliado, por exemplo com uma participação mais efetiva de atores como startups, investidores e spin-offs acadêmicas, além cuidar para que as pesquisas e tecnologias sejam aplicadas na ponta.
“Se você pega ciência, tecnologia e inovação, eu pegaria ciência, pesquisa, tecnologia, desenvolvimento, inovação e aplicação. Para ser realmente uma inovação, precisa passar por isso tudo e virar alguma coisa aplicada”, disse.
Sobre o ESX 2025, Pedrinha destacou que é o espaço onde as inovações ganham visibilidade e se transformam em conexões e oportunidades de negócio entre as empresas. Não só para negócios capixabas, mas de todo o Brasil. Ele compartilhou a sua visão sobre os impactos do ESX ao longo dos anos, as novidades, além dos participantes estreantes e o formato inédito com rodadas de negócios pela manhã.
WhitepaperDocs – Quais são as novidades trazidas pelo Sebrae/ES no ESX 2025?
Eurípedes Pedrinha, diretor Técnico do Sebrae/ES – O ESX nesta edição se concentra em ser muito mais voltado para negócios e conexões de qualidade do que as edições anteriores. Ele atinge uma maturidade ao se propor reservar as partes da manhã apenas para o ecossistema, em conexões de qualidade, com mais tempo, profundidade e trocas, deixando a parte da tarde para as mostras, a exposição das soluções, as experiências para o público geral, em maior volume. Essa é a primeira novidade que o evento traz esse ano. Pautar intencionalmente, ser mais voltado para conexões qualificadas e geração de negócios.
Para além disso, as manhãs concentram uma série de outros eventos. Neste ano, o ESX é uma soma de vários outros eventos. Nós tivemos as startups participando de encontros de investimento com investidores. Selecionamos 12 investidores que, somando a carteira de investimento deles, é algo em torno de R$ 50 milhões. Não necessariamente eles vão investir, mas eles têm esse dinheiro caso encontrem oportunidades. Nosso trabalho é ajudá-los a encontrar.
Tivemos também rodadas tecnológicas para grandes empresas, onde elas apresentaram demandas, problemas, dores, expectativas e as soluções que buscam. Dessa forma, essas startups identificam o match entre o que elas estão fazendo e pesquisando e dores reais de grandes empresas do mercado. Tudo isso aconteceu antes das portas abrirem para o público.
Por fim, temos a presença da Medsenior e da Unimed. A Medsenior está expondo, demonstrando o quanto as grandes empresas de saúde do Espírito Santo estão pautadas pela inovação, pela busca de novas soluções e pela reimaginação até dos seus modelos de negócio. A Unimed está formando uma holding de negócios para abrir novas frentes e unidades de trabalho ligadas à saúde, que não seja plano de saúde ou atendimento médico. A Medsenior tem um hub de inovação ligado à diretoria de inovação dela, que pesquisa todas as frentes e ferramentas possíveis na área do bem envelhecer, da economia prateada. E nem todas elas passam apenas por cuidados com a saúde, também passam por qualidade de vida e turismo, porque qualidade de vida na economia prateada pode estar ligada a como você vive esse momento.
O aplicativo do ESX é algo inédito nesta edição. Por que adotar essa medida agora? Qual a expectativa?
É a primeira vez que o evento do Sebrae/ES tem um app próprio, personalizado, em que tudo está indexado e estruturado lá dentro, facilitando a navegação, a organização e, principalmente, funcionando como uma rede social. Lá as pessoas estão interagindo, trocando comentários, fazendo perguntas, nos permitindo dar um mapa de calor do evento. Eles são bipados no acesso a cada sala por esse app, concentrando numa única plataforma o que foi dito, quando foi dito, quem assistiu, qual o NPS daquele conteúdo, dando um bom data-driven pra gente trabalhar pós-evento.
A expectativa é que o esforço desse app evolua para uma consolidação de uma comunidade da inovação capixaba, onde os temas que a gente aprendeu serão discutidos, os participantes já estão habituados às trocas e às comunicações. A gente só vai criar algumas subcategorias por interesse. Então um grupo de founders é uma discussão, um grupo de empreendedores é outra discussão, um grupo de investidores é outra discussão. Isso tudo será organizado numa única plataforma que ficará sob os cuidados do Sebrae Lab.
Sobre as novidades para as startups, você poderia detalhar o que tem de inédito nesta 5º edição do ESX para elas?
Na área de startups nós fizemos um movimento forte de criar pontes entre o ecossistema capixaba e os demais ecossistemas nacionais. Intencionalmente, nós procuramos os Sebraes dos outros estados, habitats de inovação consolidados, ACAT, Instituto Caldeira e procuramos também parceiros históricos do movimento startup para divulgar o nosso edital, para provocar setores específicos do mercado a participarem do edital e exporem aqui no ESX.
Com isso, nós ampliamos a diversidade de segmentos. Nós temos 16 segmentos, entre agrotech, fintech, logitech, govtech, healthtech, todos representados, ou seja, temos uma variedade de soluções muito boas e temos 24 unidades da Federação dos 27 entes federativos. Fortemente um patamar de evento nacional sendo representado por todas as regiões do Brasil.
Das 300 startups inscritas, aproximadamente 130 são de outros estados. Essas startups, também como uma novidade, não foram convidadas apenas a vir, elas foram convidadas a participar de uma jornada chamada Startup Experience ESX. Nela, tiveram encontros com Fernando Seabra para discutir modelos de pitching, treinamentos de como se apresentar e discutir com investidores na formação do seu cap table (tabela de capitalização), encontros de trocas de experiências, além de participarem de visitas técnicas no ecossistema capixaba de inovação. Uma série de iniciativas para formá-los e prepará-los.
Os participantes vão receber o certificado da participação de cursos e treinamentos, 200 deles estão listados, 70 eu sei que já fizeram orientação sobre o pitch e construção de um frame. O Estúdio Sebrae vai produzir profissionalmente um pitch individual em primeira pessoa, do empresário, desse founder, fazendo o pitch de apresentação da startup dele. Então ele já volta para casa com o vídeo pitch, com o treinamento, com as visitas técnicas. Essa jornada também é uma novidade e uma entrega que o ESX 2025 faz.
Este ano o ESX tem o conteúdo dividido em três diferentes trilhas: Criatividade, Transformação Digital e Sustentabilidade e Inclusão. Qual a importância de segmentar os temas e por que esses três assuntos foram os escolhidos?
Nós temos a consolidação e o amadurecimento do nosso modelo de entregar conteúdo, ao invés de somente conteúdos hypados, o que mais estava se falando na inovação. É preciso ter um nexo causal, uma linha que amarre isso tudo. Dificilmente quem está dentro do evento consegue enxergar. É preciso sair da ilha para poder enxergar a ilha. Essa linha temática permite que as pessoas planejem o que vão ver dentro do evento e que possa conduzir desdobramentos de cada uma dessas linhas temáticas após o evento. Nós chamamos isso de trilhas de conteúdo.
Trabalhamos em cima de três trilhas. Criatividade, que se desdobra em criatividade e solução de problema, ou seja, pensamento ágil, modelo startup, paixão pela solução e não pelo problema, pensamento criativo, mindset inovador, vários desdobramentos ligados a isso. A sustentabilidade e inclusão, onde a gente traz a diversidade como elemento de inovação, diferentes pontos de vista, colidindo e gerando ideias mais completas, com perspectivas melhores. Trazemos a oportunidade da inclusão de grupos minorizados ou sub representados na economia. Não é apenas uma questão de uma pauta social, longe disso. São oportunidades de negócios chegando a comunidades, chegando a mulheres negras distantes dos centros de negócios. A gente traz o programa Plural, abraçando e amarrando tudo isso, inclusive com um palco exclusivo que temos aqui na Tenda da Inovação.
O terceiro é o eixo de transformação digital, que é o eixo com a pegada mais tecnológica. É onde a gente fala de internet das coisas (IoT), automação, transformação digital aplicada, inteligência artificial, os conteúdos mais tech estão amarrados dentro desse eixo. Todos esses conteúdos estão sendo apreendidos por nós, indexados, e diariamente vamos soltando papers com os principais insights do dia para cada uma das trilhas. Isso tudo depois vai abastecendo tanto o WhitepaperDocs, quanto a inteligência artificial do ESX que a gente está preparando para ser educada com essas abordagens, para que possa interagir com vocês, repórteres, com o nosso time de conteúdo, com os nossos clientes interessados pelo universo da inovação no Espírito Santo.
E novidades tecnológicas?
Nós sempre tivemos os robôs atuando como atração, mas ele faz parte do nosso time. Ele roda pela feira, interagindo com os visitantes, respondendo perguntas e guiando esses visitantes até pontos de interesse. Gostaria de ver sobre qual assunto? Gostaria de ver qual empresa? Vem comigo que eu vou te levar lá. Ele vira um hostess, um guia dos visitantes por aqui.
O turismo, que é uma prioridade estratégica do Sebrae, é apresentado no nosso evento por meio de simuladores, onde a gente alia tecnologia, de óculos de realidade virtual, de simuladores com movimento, junto com imagens em 360 graus, que permitem a descoberta e o reconhecimento de pontos turísticos, atrações e atrativos do Espírito Santo inteiro, sendo apresentados aqui também no nosso evento.
Houve alguma interação entre alguma empresa em busca de inovação com startups ou universidades?
A Medsenior rodou um desafio de inovação que começou duas semanas antes do ESX 2025, que envolveu a Ufes, o Ifes, a UVV e a Emescam em grupos multidisciplinares, compostos por estudantes de Fisioterapia, Enfermagem, Medicina, Economia, Administração, entre outros, que formaram times e que discutiram desafios de inovação junto com a Medsenior. E um projeto foi escolhido vencedor.
O ecossistema da inovação vem mudando ao longo dos anos. Na sua visão, quais são os principais desafios do ecossistema da inovação capixaba hoje?
O ecossistema, como o nome já sugere, é uma entidade viva, que se abastece mutuamente. São órgãos interdependentes, mas com muita interligação. Na minha visão pessoal, o ecossistema capixaba, até onde se estruturou hoje, precisa ser complementado, ampliado. Vejo poucos investidores e poucas startups lá dentro, por exemplo. Vejo pouco de spin off acadêmica chegando lá.
Se você pega ciência, tecnologia e inovação, eu pegaria ciência, pesquisa, tecnologia, desenvolvimento, inovação e aplicação. Para ser realmente uma inovação, precisa passar por isso tudo e virar alguma coisa aplicada.
Em termos do ecossistema, eu acho que completá-lo com essas perspectivas é algo que precisa mudar também, para que a gente possa organizá-lo melhor, e ter um norte comum compartilhado. O ecossistema carece de fazer escolha, e escolha é sempre algo difícil. Toda escolha, todo trade-off é difícil porque implica em abrir mão de alguma coisa. É muito difícil a gente ver um pequeno potencial e ignorá-lo. Então a gente acaba levando muitas frentes ao mesmo tempo.
A gente discute economia criativa como inovação, no mesmo momento que fala de negócio de impacto, no mesmo momento que fala de Deep Tech no agro, discutindo biotecnologia para resolver a questão de tratamento solo. Onde a gente vai pôr foco? Eu não acho que precisa ser um jogo de eliminação. O mercado não é um jogo de soma zero, diferente do que as pessoas pensam. As pessoas disputam primeiro, segundo e terceiro lugar, mas tem o centésimo lugar, o quinquagésimo lugar. Tem espaço para todo mundo, mas a gente precisa fazer algumas escolhas.
Faltam algumas visões que complementem o ecossistema como um todo e nos ajudem a formular ações com uma perspectiva mais completa. Uma delas é trazer os investidores e as startups participando um pouco mais dessas discussões, o que temos tentado fazer enquanto Sebrae.
Quais são os principais desafios para micro e pequenas empresas na inovação?
Para a área de inovação como um todo, eu começaria com um desafio não óbvio: mindset. A micro e pequena empresa nem sempre pensa ou percebe o quanto a inovação está próxima, é necessária, é possível e viável para o negócio dela. É típico da pequena empresa apostar muito mais em esforço do que em visão. Se as coisas estão difíceis, ele abre mais cedo e fecha mais tarde. Ele trabalha mais. Ele prefere dar desconto, diminuir a margem do que procurar responder uma pergunta: de que outra forma eu posso vencer essa mentalidade e trazer mais para perto da realidade da pequena empresa? É um desafio que nós temos, porque isso é uma barreira de inovação para eles.
Para além disso, vem a dificuldade de entender os caminhos e se observa a responsabilidade do Sebrae/ES no item mentalidade e na explicação dos caminhos. Eu pessoalmente quero ser o explicador geral disso para a pequena empresa. Eu vou usar cada habilidade de comunicação que eu tiver para contar essa história todo dia. Que é: você teve uma boa ideia, o que você faz agora? O que você procura? Onde você vai e leva isso? Chega num balcão Sebrae/ES, será que a primeira orientação que você recebe é adequada? Você já sabe a diferença de uma incubadora para uma aceleradora, para um hub? Às vezes ele tem ali uma boa ideia, acaba conversando com um amigo, procurando um filho, tem uma informação informal e às vezes pouco qualificada, incompleta, dá os primeiros passos numa direção equivocada, desiste, volta pro mindset de paradigma bloqueado.
O segundo desafio é ter uma jornada clara. É preciso apresentar uma jornada clara para a pequena empresa saber para onde ela pergunta o que fazer, para onde ela deposita a ideia dela, tanto quanto ela está ofertando quanto está demandando. O terceiro, depois de entender a jornada, é o acesso. São as três coisas que o ESX resolve. É ter o contato e ter a condição de aderir ou de adotar soluções inovadoras ou ter condições de dar os primeiros passos no desenvolvimento da sua ideia inovadora. A partir disso é literalmente apresentar soluções numa feira, como o ESX, ou colocá-lo numa jornada para preparar a ideia para chegar até o mercado, ter um MVP e ver se isso vai adiante mesmo.
Quais impactos você define que o ESX alcançou nesses 5 primeiros anos de evento?
A marca está consolidada, as pessoas conhecem o ESX e já conseguem entender a natureza do evento. Podem ainda não entender tudo que acontece. Esse é o trabalho que nós teremos ao longo do ano, mas eu acho que o evento atinge a maioridade. Abraça o ecossistema. Se vocês andarem, entrevistarem, está todo mundo aqui, todo mundo gostando, todo mundo falando.
O melhor termômetro que eu tive, que me deixou mais feliz, foi ver os eventos paralelos acontecendo no ESX. O FindesLab está fazendo um meetup no seu stand, TecVitória no Inspira+ Senac fazendo formatura de turma. É o ecossistema respondendo ao estímulo do ESX.
Se eu fosse colocar isso numa linha de sonho, de uma visão, eu veria em mais dois anos ou três o ESX já sendo um evento de vários dias, porque vai ser o antes, durante e depois do evento. Com um monte de coisa acontecendo antes e explodindo no ESX, começando no ESX e continuando depois. Essa é a visão que eu tenho para o futuro do evento.

