Por Karol Costa, participante da cobertura jornalística do ESX 2026 realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com o Sebrae/ES.
O ESX 2026 encerrou sua sexta edição neste sábado, 13 de junho, consolidado como o grande motor de conexões qualificadas do ecossistema de inovação capixaba. Em entrevista ao WhitepaperDocs, o diretor técnico do Sebrae/ES, Eurípedes Pedrinha, fez um balanço dos três dias de evento, revelando um crescimento de 20% no público e um salto expressivo no volume de negócios, que saltou de R$ 24 milhões no ano anterior para R$ 41 milhões em intenções de compra e investimentos direcionados às startups.
Pedrinha enfatizou que o foco estratégico desta edição foi a intencionalidade nas conexões corporativas e a quebra de fronteiras, atraindo mais de 100 startups de outras regiões do País para elevar o nível de competição e a ambição do mercado local. O diretor técnico do Sebrae/ES também anunciou os próximos passos do projeto: a virada de chave do aplicativo oficial para o lançamento da comunidade “Inovadores”, mantendo a chama da inovação acesa e os matchmakings ativos durante o ano inteiro.
WhitepaperDocs – Qual é o balanço do ESX 2026?
Eurípedes Pedrinha, diretor técnico do Sebrae/ES – Observamos uma curva de crescimento em torno de 20% no público. No ano passado tivemos cerca de 20 mil participantes, e este ano estimamos fechar entre 22 mil e 25 mil. Contudo, esse crescimento não foi meta nem métrica. Ele veio pela consolidação da marca. Não houve aumento de mídia ou de verba de divulgação. O aumento do público é naturalmente a resposta da sociedade ao amadurecimento do evento. Em termos de negócios, a última medição apontou R$ 41 milhões em compras ou investimentos direcionados às startups. No ano passado, esse valor foi de R$ 24 milhões. Tivemos um aumento de aproximadamente 40% de um ano para o outro, e isso foi totalmente intencional. Várias ações foram direcionadas para que o evento gerasse melhores conexões de negócios. Essa é a grande entrega desta edição.
O objetivo do Sebrae/ES é tornar o ESX um evento focado em transações comerciais?
Nosso objetivo está intimamente ligado a essa métrica. Ao longo das quatro primeiras edições, a meta era popularizar, democratizar e pautar a inovação no ecossistema: falar sobre o tema, mostrar conteúdos e gerar interesse, ao mesmo tempo que criávamos conexões para as pessoas se encontrarem. Em 2025, já mudamos isso: abrimos ao público geral só à tarde e eliminamos um dia do fim de semana, transformando o formato de sexta, sábado e domingo para quinta, sexta e sábado. Trouxemos o ESX para uma posição mais madura, voltada a um público que vem para fazer conexões de negócios, e não apenas um encontro. A edição de 2026 cumpriu esse objetivo à altura do esperado e superou nossos planos em termos de estrutura, com ruas mais amplas, espaços de startups mais confortáveis e melhor fluidez. A ideia era exatamente esta: ainda que viessem menos pessoas, teríamos melhores contatos.
Como o conceito “Inovação sem Fronteiras” se refletiu na prática ao longo desses três dias de evento?
Inovação sem fronteiras é uma provocação para vencer barreiras geográficas, demográficas, sociais, culturais e tecnológicas. Rompemos fronteiras na medida em que buscamos a nacionalização do ESX. Contratamos equipes que foram até os ecossistemas de fora, visitaram habitats consolidados, apresentaram o projeto e conversaram com startups. Fizemos encontros ao vivo e online. Isso resultou em convidados de fora nos palcos e em mais de 100 startups de outros estados na nossa mostra. A partir de agora, intercâmbios e visitas técnicas para esses ecossistemas já estão sendo programados.
Outro ponto foi o Eli Summit (Ecossistemas Locais de Inovação), que envolve nove regiões do interior do Estado, como Alegre, Cachoeiro, Colatina, São Mateus e Aracruz. O ESX é cada vez mais intencional. Colocamos consultores em campo organizando encontros entre professores, alunos, prefeituras, governo e empresários para discutir problemas locais e encontrar soluções juntos. Quando conectamos essas localidades para trocar boas práticas, também rompemos fronteiras. Além disso, selecionamos 12 fundos e investidores do Brasil inteiro para a jornada Startup Experience. Eles interagiram com as 520 startups inscritas, visitaram as 222 expositoras e sentaram à mesa com 70 delas para discutir investimentos, de onde vêm esses mais de R$ 41 milhões previstos.
Para os empreendedores e startups participantes, quais foram os ganhos práticos dessas conexões?
Existe um livro do Steven Johnson que discute de onde vêm as boas ideias, e uma das teses do autor é que elas surgem do encontro de pessoas e de perspectivas diferentes. Quando colocamos um empreendedor diante de uma grande empresa como a ArcelorMittal, por exemplo, geramos uma fagulha. Imagine a ArcelorMittal comentando aleatoriamente sobre suas dores e o fundador de uma startup escutando e dizendo: “eu já resolvi isso” ou “já vi como resolveram”. O simples encontro gera um universo de possibilidades. Mas aqui no ESX nós fazemos mais do que encontros simples, nós fazemos matchmaking. Temos uma base de dados muito rica das startups e uma proximidade grande com as corporações. Nós juntamos essas duas pontas, orientando a startup sobre quem ela deve procurar e indicando para a grande empresa onde está a solução para o problema dela. Após o evento, começamos a receber uma enxurrada de histórias de pessoas que tomaram um café ou comeram uma pizza juntas aqui e depois fecharam uma sociedade. Promover intencionalmente esses encontros é a grande oportunidade que o ESX entrega.
O que mais te surpreendeu positivamente ao longo desses três dias de evento?
O que mais me surpreendeu foi a adoção de toda essa dinâmica pelo próprio ecossistema. Enquanto eu andava pela feira, muitas pessoas vieram falar comigo, professores, startupeiros, alunos, representantes de prefeituras e do governo. Em todos os contatos, a resposta foi a mesma: “estou encontrando coisas que me surpreendem e fiz uma conexão que vai gerar negócios”. Essa provocação voltada para negócios foi um dos grandes desafios que coloquei para mim mesmo quando assumi a diretoria do Sebrae. No meu primeiro ESX, em 2024, o ponto mais frágil eram justamente as conexões de mercado. Ver a fluidez com que os negócios aconteceram este ano, sem crises ou pontos fora da curva, reforça o meu entendimento sobre o amadurecimento do projeto.
Houve uma presença expressiva de startups de outras regiões do País. Como você avalia o impacto dessa abertura de mercado para o Espírito Santo?
A cada dia penso em aumentar nosso empenho nisso. Por muito tempo, o Espírito Santo ficou escondido, ilhado e alheio às principais articulações do País. Isso criou no nosso mercado um baixo nível de competição, não de competitividade, mas de competição mesmo. A gente cria uma zona de conforto. Quando pessoas de fora vêm para cá e mostram o que estão fazendo, nós provocamos o ecossistema local e ativamos nele uma ambição vencedora maior. O empreendedor capixaba pensa: “espera aí, não vou deixar ninguém ganhar o mercado aqui, vou trabalhar”. Isso acelera a vontade das pessoas e aumenta a fome do ecossistema. Amplia a visão. Como dizia Einstein, uma mente que se abre a uma nova ideia nunca mais volta ao seu tamanho original. Conversar com uma startup de Santa Catarina faz o empreendedor daqui enxergar o mercado com outra lente, aumentando sua ambição. E essa é uma ambição pessoal minha: quebrar a inércia e gerar aceleração no nosso mercado.
Quais foram os temas e eixos temáticos que ganharam mais força nas palestras e painéis deste ano?
Duas frentes ganharam muito espaço em comparação ao ano passado. A primeira foram as pessoas. Este foi o ESX em que mais discutimos o ser humano e o indivíduo, a sua relação com a tecnologia e com a transformação, e não apenas o ambiente ou a sociedade de forma genérica. A segunda frente foi o foco na aplicação da tecnologia, e não no desenvolvimento dela. O eixo “Evoluir” foi todo pensado para provocar os empresários sobre como evoluir o próprio negócio a partir da adoção tecnológica. Discutimos como aplicar a automação, como usar a robótica e a inteligência artificial no processo final e no dia a dia, muito mais do que apenas como suporte de TI.
Qual é o grande legado que o ESX 2026 deixa para o Espírito Santo e quais são os próximos passos?
O grande legado é a clareza de quem somos e para onde vamos. Um dos ressentimentos antigos do ecossistema era o fato de falarmos muito nele, mas ninguém conseguir se enxergar ou se entender como parte dessa entidade viva. Na medida em que o ESX se consolida, ele tangibiliza isso. Agora nós conseguimos ver. Ver e ser visto, reconhecer e ser reconhecido é a base para formar uma comunidade. E deixar essa comunidade de inovação estruturada é o nosso principal objetivo.
A partir de segunda-feira, todo o esforço data-driven do evento (as pesquisas, os dados do aplicativo, as interações online) vai dar vida a um projeto de comunidade perene chamado “Inovadores” (com o “ES” no final, bem como tudo o que fazemos). O ESX não termina hoje. Acaba o evento físico, mas a plataforma continua viva no app, na newsletter, nas redes sociais e em eventos menores que vamos tocar daqui para frente.
O aplicativo oficial do evento terá um papel central nessa estratégia pós-evento? E quanto à ideia de mudar os dias do ESX?
A ideia de mover o evento totalmente para o meio da semana, para terça, quarta e quinta-feira, é justamente para encaixá-lo de vez em uma agenda estritamente corporativa e comercial, facilitando a rotina de negócios das startups e expositores. Quanto ao app, ele nasceu para dar fluidez aos visitantes diante da enorme quantidade de atrações simultâneas. Mas percebemos que não faz sentido desligar a plataforma quando o evento físico acaba. Vamos transmutar isso para uma comunidade perene. O site continuará no ar como um repositório de conteúdos e a newsletter mensal trará os alertas do mercado. Se uma startup descobriu esse universo hoje, ela não precisa esperar o ESX de 2027, ela se mantém conectada na plataforma participando de talks, jornadas de qualificação, discussões com fornecedores e momentos de matchmaking. Queremos uma curva ascendente contínua, sem picos e vales.
Para encerrar, falando de sentimento: como idealizador e diretor, qual é a sensação ao ver a entrega do ESX 2026?
Diante de tudo o que vimos aqui, a única resposta possível é que me sinto plenamente realizado. A sensação é de dever cumprido, meta batida e sonho realizado. Todas essas provocações que dividi com vocês são visões que eu trouxe quando assumi a diretoria do Sebrae, elas não existiam antes. Eu vendi uma nova perspectiva para a instituição, vendi uma visão nova para o time e conseguimos conduzir o projeto para chegar a esse patamar diferenciado de entrega, sem percalços e com extrema fluidez. Estou muito feliz. E, ao mesmo tempo, já me sinto desafiado a fazer tudo isso acontecer não no ano que vem, mas a partir da semana que vem. O desafio não é produzir um evento anual, é manter essa chama viva no dia a dia. Geramos um impacto ímpar na realidade de muitas empresas, e o sentimento de todo o time é de profunda felicidade por ter criado uma transformação real.

